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Estava contando lá no meu próprio blog um pouco do trabalho de Rosângela Rennó. Além de apresentá-lo em uma performance no dia da inauguração de Mapas invisíveis, que acontece na próxima segunda-feira, na Caixa Cultural, a artista mineira, um dos nomes fundamentais de nossa arte contemporânea quando é assunto é memória, revirou fundo a de um lugares mais heterogêneos do Rio de Janeiro: a Saara. A Sociedade dos Amigos e das Adjacências da Rua da Alfândega une árabes, judeus e coreanos no maior mercado popular ao ar livre da cidade.
No dia 26 de novembro, sexta-feira, Rennó vai fazer uma intervenção urbana na Saara. Em seu trabalho, a Senhor dos Passos, com a via crucis inspirada por seu nome – os 14 passos da Paixão de Cristo – a artista une todos os grupos religiosos e étnicos da Saara através do incenso, um elemento litúrgico que tem a mesma função para todos eles. A fumaça perfumada purifica o corpo e zera a mente para unir terra e céu, fazer o religare, religar, proposto básico da religião.
É assim para árabes, judeus, coreanos budistas, católicos – poucos lugares do Rio têm tantas igrejas quanto a Saara- e umbandistas. O sincretismo uniu o orixá Ogum ao guerreiro São Jorge, que graças à sua popularidade usurpou de São Gonçalo do Amarante, titular da nave, a igreja mais frequentada da Rua da Alfândega. O toque da alvorada no dia 23 de abril, dia de Jorge, dia de Ogum, é o despertar mais esperado para muitos cariocas.
Para reforçar o sublimação e o simbolismo desta mistura feita pela Saara, Rennó vai dividir a Senhor dos Passos em sete regiões, com dois turíbulos cada, formando assim os 14 passos da Paixão percorridos por Jesus Cristo. No primeiro incenso, será queimada uma das 7 essências puras que existem no mundo – o Olíbano, usado em missas, é uma delas, assim como o Breu Branco, encontrado na Amazônia. No segundo turíbulo, o primeiro incenso será misturado ao próximo, que aparece puro no terceiro turíbulo. E misturado ao próximo no quarto turíbulo, e assim sucessivamente. Os sete participantes da ação, que passarão algumas horas defumando a rua, também entregarão para os passantes da Saara um mapa da região e informação sobre aqueles cheiros que estão tomando conta de seu caminho.
Caminho é, aliás, uma palavra sintética para falar da Saara. O lugar foi antiga rota das mulas que chegavam carregadas de ouro das Minas Gerais e descarregavam na Alfândega, hoje Casa França-Brasil – daí o nome da rua. As primeiras procissões promovidas por dom João VI também aconteceram ali.
O footing das “meninas” que ganham a vida nos arredores da zona comercial, na Rua Luís de Camões e os cordões de carnaval que desaguávam na Praça Tiradentes completam a ideia da Saara como um grande passeio popular. Sua configuração de mercado aberto é o eixo desta identidade. Para comprar bem em uma loja da Regente Feijó ou da Buenos Aires, é preciso andar. Naquelas ruas, é caminhando que se descobre o caminho.
Na Galeria 1 da Caixa Cultural, os incensos de Rennó receberão os visitantes na entrada da mostra. Só depois de passar pela Saara, seus cheiros e suas misturas, descarregados do mundo lá fora, é que entraram nos outros trabalhos sobre o Rio.
[...] no blog de Mapas invisíveis, aqui, para saber mais sobre a intervenção de Rennó na Senhor dos Passos e na galeria da [...]
Dani, a primeira foto, PB, não pode ser da déc. 1970! Isso é uma foto das primeiras décadas do séc. XX, basta reparar nas pessoas e suas roupas.
abs e sucesso na mostra!
Valeu, Fábio! Foi uma distração minha. Não sei o que me deu. Sono, provavelmente, já que fui dormir às 3h e 7h30 já estava de pé, ralando. A identificação dizia circa de 1920, mas achei muito impreciso. Vou optar por “primeira metade do século XX”. Beijos! Espero você na Caixa.
Normal!
Só queria colaborar. bjos