Daniel Senise fez seu mapa invisível a partir de Botafogo e escolheu um lugar específico, o Cemitério São João Batista, para realizar seu trabalho. Durante um período no mês de julho, ele recolheu as folhas que caíam das árvores da área interna do cemitério e vai realizar com elas o site specific batizado com o nome do bairro na Galeria 1 da Caixa Cultural.
Lar dos comerciantes endinheirados no fim do século XIX e início do século XX, Botafogo foi ficando cada vez mais degradado depois das reformas que demoliram o Palácio do Mourisco e abriram o túnel para Copacabana, transformando-se em lugar de passagem. Espécie de bairro-fantasma, com inúmeros casarões vazios, tem no cemitério um excelente espelho justamente no momento em que parece se preparar para um ciclo de renascimento, com uma explosão imobiliária e a construção de inúmeros prédios.
O trabalho de Senise, com as folhas mortas vindas do lugar da morte, fala justamente destes ciclos de desaparições e sobrevidas. Também se relaciona em vários aspectos com a trajetória do artista, que tem uma pintura marcada por corpos e imagens ausentes e vestígios de materiais que morrem um pouco para tingir a tela.

O uso de folhas mortas acumuladas assim, junto com seu pequeno texto, me fez pensar também no quanto de potência de renascimento de novas vidas há nelas, se lhes fosse permitido completar seu ciclo, tornando-se humus e assim, matéria-prima para um novo estágio de vida. E na verdade, como isso é metafórico de TANTAS coisas em nossas vidas, não apenas na natureza, ao negarmos que tantas coisas que não completem seus ciclos, como interrompemos fluxos e possibilidades, na arrogância típicamente humana de que sabemos mais e melhor, desdes os ciclos naturais, até os ciclos das pessoas, das OUTRAS pessoas, como sempre nos achamos capaz de saber o que é melhor para o fulano do lado, mais do que ele mesmo.