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Vamos fazer Mapas invisíveis em  São Paulo, do mesmo jeito que fizemos no Rio. Artistas nascidos, residentes ou frequentadores assíduos da cidade serão convidados a se debruçar sobre determinadas regiões, produzindo um trabalho inédito.

Com inauguração prevista para 30 de agosto, na CAIXA Cultural Vitrine da Paulista, a mostra tem produção da Tisara e elenco tão peso-pesado quanto a versão carioca. Serão 9 mapas e 10 artistas:

Cinthia Marcelle & Marilá Dardot

Estela Sokol

Fabiano Gonper

Laerte Ramos

Lenora de Barros

Lucia Koch

Marcelo Moscheta

Paulo Nenflídio

Tatiana Blass

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Estava contando lá no meu próprio blog um pouco do trabalho de Rosângela Rennó. Além de apresentá-lo em uma performance no dia da inauguração de Mapas invisíveis, que acontece na próxima segunda-feira, na Caixa Cultural, a artista mineira, um dos nomes fundamentais de nossa arte contemporânea quando é assunto é memória, revirou fundo a de um lugares mais heterogêneos do Rio de Janeiro: a Saara.  A Sociedade dos Amigos e das Adjacências da Rua da Alfândega une árabes, judeus e coreanos no maior mercado popular ao ar livre da cidade.

No dia 26 de novembro, sexta-feira, Rennó vai fazer uma intervenção urbana na Saara. Em seu trabalho, a Senhor dos Passos, com a via crucis inspirada por seu nome – os 14 passos da Paixão de Cristo – a artista une todos os grupos religiosos e étnicos da Saara através do incenso, um elemento litúrgico que tem a mesma função para todos eles. A fumaça perfumada purifica o corpo e zera a mente para unir terra e céu, fazer o religare, religar, proposto básico da religião.

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Luiz Alphonsus trabalha com intervenção urbana desde os anos 1960, mesclando o interesse por pintura com performances, fotografias e instalações.  Contamina todos os seus projetos com uma certa estranheza, que pode vir de sonho ou pesadelo, e que talvez seja parte de uma herança de seu avô, o poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens. No trabalho do artista visual, esta sensação de deslocamento cobre as imagens de maneira quase imperceptível, como um véu transparente.

Em “Mapas invisíveis” não foi diferente. Desafiado a abordar o Aterro do Flamengo, uma das reformas urbanísticas mais importantes do Rio de Janeiro, Luiz Alphonsus revisitou uma antiga série de fotos e criou um trabalho inédito, que reúne fotografia e instalação. Em Paisagem Estrutura Móvel – 2010 –  Aterro, ele estendeu uma faixa branca na paisagem projetada por Burle Marx durante um domingo de sol, fotografando-a. A faixa vai vazar da imagem para o espaço da Galeria 1 da Caixa, levando para a exposição a ideia de interdição provocada pelo Aterro.

Apesar de todos os benefícios trazidos para o Rio e da grandiosidade de seu projeto, o parque foi uma obra polêmica, que afastou os cariocas do mar e mostrou que a cidade se rendia definitavamente a um pensamento urbanístico que priorizava os carros, e não mais os pedestres.  Além de abordar este problema, Alphonsus também toca na transitoriedade da aparência das metrópoles.

Mapa de montagem com canetinha. “Feito com amor”, diz a propaganda nos botecos cariocas…

 

Daniel Senise fez seu mapa invisível a partir de Botafogo e escolheu um lugar específico, o Cemitério São João Batista, para realizar seu trabalho. Durante um período no mês de julho, ele recolheu as folhas que caíam das árvores da área interna do cemitério e vai realizar com elas o site specific batizado com o nome do bairro na Galeria 1 da Caixa Cultural.

Lar dos comerciantes endinheirados no fim do século XIX e início do século XX, Botafogo foi ficando cada vez mais degradado depois das reformas que demoliram o Palácio do Mourisco e abriram o túnel para Copacabana, transformando-se em lugar de passagem. Espécie de bairro-fantasma, com inúmeros casarões vazios,  tem no cemitério um excelente espelho justamente no momento em que parece se preparar para um ciclo de renascimento, com uma explosão imobiliária e a construção de inúmeros prédios.

O trabalho de Senise, com as folhas mortas vindas do lugar da morte, fala justamente destes ciclos de desaparições e sobrevidas. Também se relaciona em vários aspectos com a trajetória do artista, que tem uma pintura marcada por corpos e imagens ausentes e vestígios de materiais que morrem um pouco para tingir a tela.

 

Anna Bella Geiger se debruçou sobre a Região Portuária para fazer seu “mapa invisível” do Rio. Porta de entrada de todos os estrangeiros, caminho da cidade para o encontro com o diverso e o outro, o Porto reunia elementos que se casavam perfeitamente com a obra da artista, que sempre teve nos mapas e na geografia duas de suas inquietudes.

Local: Zona Portuária com águas do mar é um trabalho inédito feito especialmente para a exposição. Une uma imensa gravura desenrolada a partir de uma bobina de papel, com 5 metros de largura, e um vídeo, que será encaixado na própria extensão da imagem gráfica e projetado em um pequeno aparelho, idêntico ao usado para DVD e GPS em alguns táxis cariocas.

Anna Bella partiu do texto bíblico em hebraico, que ainda não sintetiza a palavra “oceano” e usa “águas do mar” para definir as águas salgadas. Mesclando imagens de origens diversas, ela sobrepõe visões reais e inventadas de regiões de Baía – como a que mostra a de San Francisco sendo invadida por discos voadores – para falar do Porto como começo e recomeço, como criação.

Descendente de imigrantes, como boa parte dos cariocas, Anna Bella também volta às próprias origens judaicas ao mergulhar nesta porta de entrada não só da cidade, mas da formação de uma identidade coletiva. Ao sobrevoar as paisagens portuárias, ela repete uma operação muito comum ao longo de sua trajetória: se distancia do mapa, apresentando-o como se estivesse do alto de uma grua, de um avião ou mesmo de um satélite. Depois disso, mergulha nele e faz o reconhecimento e a fundação. Atraca, enfim, neste novo território, como alguém que chega ao cais e se reabastece para novas odisseias.

 

 

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